sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Quem é meu pai?

A dúvida é cruel demais. Cayetano é, ou não é, meu pai? Nunca saberemos. Crescemos festejando o aniversário dele em 31de dezembro. Sempre foi muito legal comemorar o 'parabéns a você' e, minutos depois, iniciar a ceia do Réveillon. Só que ele não nasceu em 31 de dezembro. A farsa (Rosa prefere dizer que se trata de família enrolada) foi comunicada aos filhos há dois anos. 'Nasci no dia 6 de janeiro. Na noite de 31 de dezembro, nasceu um irmão meu.'

Ooooohhhhhh!!!. A surpresa foi uníssona. Como assim? Depois de tantos anos só agora você descobriu isso?Sabíamos da alteração da data e do ano de nascimento, justamente para escapar do serviço militar e acompanhar os Nicolas na fuga para o Brasil. De 31 de dezembro de 1931, ele passou a ser nascido em 6 de janeiro de1934. Coisas do século passado, onde documento não tinha importância. Pais e cartorários colocavam qualquer coisa. No caso dos Nicolas, então...todos sabem como é essa família. Afinal, yaya e yayo jamais tiveram essa preocupação em deixar cada nascimento religiosamente registrado.

E agora? Estaríamos nesses anos todos chamando de pai quem, na realidade, é o tio? Será que o Cayetano que conhecemos é o Cayetano mesmo? Se ele for nosso tio, então, eu e meus irmãos são primos. E nossa mãe é nossa tia. Meu Deus, que confusão. Meu pai, que pode ser meu tio, é casado com minha mãe, que pode vir a ser sua cunhada. E como ficamos nós? Num evento social, por exemplo, apresenta-se a família como? 'Senhores, senhoras, esse é meu pai e meu tio, tudo junto; essa minha mãe e minha tia, tudo junto, mulher e cunhada dele, que é meu pai, ou seja, meu tio. Eis meus irmãos, que podem ser meus primos, filhos dele, ou sobrinhos, assim como enteados de minha mãe, que casou-se com meu pai, que na realidade é meu pai, portanto, cunhado dela.'

Sendo nós filhos dela, então meu pai é nosso padrasto. Mas se ele é irmão de meu pai, então poderemos chamá-lo de tio.

Jesus, amado, como explicar aos netos e ao bisneto que esse não é o yayo. Não vou entrar nem na neurose de detalhar que a yaya talvez não seja a yaya e que também os tios talvez não sejam os tios, mas sim primos. Será que os pais dos netos do yayo (ou tio-yayo) são mesmo os pais dessas crianças? Os pais dos netos e bisneto são filhos da yaya, isso é fato! Claro que não, porque ela é a cunhada do Cayetano, aquele que nasceu em 31 de dezembro. Mas o Cayetano acaba de admitir que ele nasceu no Dia de Reis e que foi um irmão o rebento que veio ao mundo na virada do ano...

SOCORRO. Afinal, quem é e onde está meu pai???

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Barraca pelos ares

Tarde da noite. Camping Humaitá, Bertioga. Silencio total. Os únicos sons daquela madrugada fresca eram os coachar dos sapos e pererecas e o cricri dos grilos. Aqui e ali ouviam-se uns roncos e uns puns mais atrevidos, vindos das barracas erguidas quase em cima umas das outras, tal era o modismo no fim dos anos 70 e inicio dos anos 80. Também era possível ouvir respira pés ofegantes de casais que insistiam em testar a inviolabilidade das lonas. Por certo caíram na conversa do vendedor de barracas, que garantia total privacidade entre as paredes de 'prástico' impermeável.

Pois bem. Naquela madrugada os barulhos rotineiros do Humaitá foram abafados por um cloclocló constante e irritante vindo do extremo norte daquele cupinzeiro de gente envelopada em todos os tipos de barraca. O tal cloclocló ininterrupto era acompanhado de risos altos, vozes em coro desafinado, gritos e outras manifestações típicas de algazarra. Uma da madrugada. Duas da madrugada. Três horas. E nada do cloclocló parar. 'Caralho, essa gente não dorme, droga!', certamente esse foi o grunhido geral no camping naquela data.

Um campista irritado, com olheiras profundas, cara de travesseiro amassado e, pasmem!, pijama de cordinha (em plena praia), resolve colocar um fim no cloclocló. Com um copo de plástico na mão, educadamente se aproxima do grupo entretido em acirrada partida de war (excelente jogo de estratégia) e propõe trocar o copo de vidro usado para mexer os dados pelo de plástico, menos barulhento. 'Assim, todos podemos dormir e vocês continuam jogando sem atrapalhar nosso descanso. Sugiro que vocês também falem mais baixo e respeitem os demais campistas'. Dito isso, o pijameiro, gordo, careca, uma mistura de Jô Soares com Faustao (ó loco, meu), deixa o copo de plástico mole (aquele em que servem chope quente em festinhas de aniversario) sai e não ouve a praga lançada pelo terrível Pedro:
- Volta pra sua barraca, gordo! Tomara que amanhã sua barraca exploda!

Oito horas. Camping acordado. Todo mundo indo para a praia. De repente, boom! Uma barraca explode. Vazamento de gás. A cena, hilária: o gordo, ainda com seu pijama de cordinha, sentado em um banquinho, caneca de café na mão e atrás de si os ferros de armação da barraca, que virou cinza. FOI A VINGANÇA DO CLOCLOCLÓ!!!