sexta-feira, 4 de maio de 2012

O PATRIARCA

Minhau, minhau, minhau, balalam, balalam, balalam. Minhau, minhau, minhau, balalam, balalam, balalam. Pam pararampam, pam pam... Quem o conheceu, melhor, quem conviveu com ele, tem viva na memória essa musiquinha. Bem, musiquinha, é modo de dizer. Porque a letra era só isso, claro que com uma sonoridade que fica difícil reproduzir aqui. Mas assim era o yayo José Nicolás e sua alegria ao receber os netos em casa ou no depósito. O ferro velho Fundação. Na Rua 28 de Julho, bairro Fundação. Era ali, no sofá de plástico laranja vermelhão de sua casa, nos fundos do terreno, ou na imponente cadeira de respaldo alto, reclinável, atrás de maciça mesa de madeira, repleta de fotos, recortes de jornais, santinhos, lista de telefones da família ou de clientes, tudo protegido por grosso vidro, que ele costumava ficar. Na gerência da família. Na gerência da firma. No seu 'escritório de trabalho', tinha um enorme risque-rabisque, no qual adorávamos desenhar. E as gavetas... Na primeira ficava o caixa do dia, um compartimento de alumínio, semelhante a uma marmita, repleta de Cabralzinhos e moedas, muitos elastiquinhos para prender as notas em rolinhos, dezenas de canetas (de corpo colorido, com propaganda impressa, nada de mais, mas canetas já me encantavam nessa época). Nas outras, talões de notas fiscais, papelada pouca atraente para a garotada. No último gavetão, e em latões atrás de onde o sr. Nicolás se sentava diariamente, tentação: quinquilharias de cobre, bronze, lata, alumínio e outros derivados. Um apetitoso e atrativo tesouro para a criançada. Com os netos, yayo era só atenção. Exagerada até. Certa vez, na tradicional brincadeira de bom princípio, ao fim das doze badaladas que anunciavam o Ano Novo, a tropa de Nicolazinhos formara fila indiana à frente do patriarca, todos com a mão estendida. E ele, para desespero de seus filhos, enfiou a mão no bolso e sacou enorme rolo de dinheiro. Exatamente o caixa do ferro-velho e, radiante, presenteou os netos com quantia exorbitante de cédulas. 'Estamos ricos, estamos ricos', gritávamos, ao mesmo tempo em que os pais corriam para recolher de volta o bom princípio dado. Eles não poderiam começar o ano sem um tostão na empresa. Em seu trono de senhor de 'nossas vontades', yayo Nicolás se esbaldava de rir. Com ele não tinha tempo ruim. Ao menos para os netos. Tinha carinho especial por alguns. Eu, por exemplo, levava vantagem, afinal era sua afilhada também. E raramente yayo me dizia 'não'. Foi assim com minha primeira bicicleta, uma Monareta, recém-lançada no mercado. Fui com ele buscá-la na loja, mas quem deu as primeiras pedaladas foi meu irmão Ramón. Da loja até em casa, já que eu não tinha pratica alguma em duas rodas. Mal e desajeitadamente conseguia me equilibrar na magrela preta dele, com um cano ligando o selim e o guidão. Mas a minha Monareta não tinha nada disso. Era perfeita. Azul e branca, sem cano algum, com selim almofadado e pneus pretos e brancos. Um sonho! Foi ele também quem me deu minha primeira máquina de escrever, pequena, portátil, um luxo, cor de laranja. Nela, comecei meus primeiros textos. Creio que ali teve início minha profissão. Tempos depois, numa das investidas de meu pai de tirar objetos de casa para um 'quebra-galho' no depósito, lá se foi minha máquina por empréstimo. Meses se passaram e meu xodó sumiu. Até encontrá-la com uma prima, cujo tio insistia em dizer que a havia comprado para a filha. Tolo! Até hoje tenho mania de colocar meu nome em vários locais (na época, havia Lola gravado na gordura acumulada em cima do armário da cozinha, na coleira do cachorro, debaixo da mesa da sala, na grade da janela da copa, na etiqueta do colchão...). Foi só virar a aboborona de ponta-cabeça e lá estava: Lola, SCS. Era minha. Peguei de volta. Yayo também nos fazia brincar de caça ao tesouro. Era para achar balas e chocolates que ele adorava, mas, por ser diabético, ficavam escondidos pela yaya. Mal escondidas, por sinal, pois facilmente achávamos o pote (sempre no mesmo lugar) e, sorrateiramente, pegávamos os doces para nós e alguns para ele também. Santa inocência infantil a nossa! Ele não deveria comê-los. Mas, jamais se preocupou com sua saúde. Tinha uma ferida enorme na perna (não lembro qual, mas recordo dos unguentos que passavam nela e depois enfaixavam). Enganava os médicos, fingia tomar os remédios e não estava nem aí com a dor e a secreção. Tempos depois passou a usar bengala. Era festeiro. Gostava de casa cheia, de fazer paella em fogo de lenha, usando tantos quantos utensílios houvesse casa. A louça...bom, tinha noras pra quê? Pra lavarem a louça e o quintal, enegrecido pela fuligem de madeira queimada. Senhor Nicolás impunha respeito na sociedade. Só que adorava ludibriar quem por ventura viesse a vender-lhe sucata de má qualidade, manobrando no peso e na conta. Quando o cliente ia embora, flagrado por algum neto, apenas sorria e dizia que nada entendíamos. Também gostava de jogar na loteria federal. Semanalmente lá estava o mesmo bilheteiro a vender-lhe a cartela cheia. Nada de fração. Era tudo ou nada. Ganhava uns trocados aqui, outro ali, trocava o bilhete graças à combinação de centena ou milhar, mas não ia além disso. Em 1971 cansou-se de tentar a sorte e avisou o bilheteiro que não jogaria mais. Chega! O rapaz, no entanto, não aceitou perder cliente tão assíduo e ficou horas convencendo-o a comprar a cartela inteira. Aporrinhou tanto que o Sr. Nicolás que, mesmo de má vontade, acabou cedendo e ficou com o bilhete. Premiado! Acertou em cheio e faturou sozinho R$ 50 milhões (em dinheiro da época). Torrou no que quis e não quis. Zerou dívidas, reformou a casa, foi viajar com sua velha para a Espanha (ir de avião naqueles tempos era uma fortuna), mas fez sua viagem de sonhos. E comprou um Galaxie 500, zero quilômetro, branco e com estofado vermelho. Fez questão de instalar uma buzina única em toda São Caetano. La Cucaracha. Por onde passava, ao avistar um conhecido, apertava o botão e, em alto e bom som, a rua parava para ouvir La Cucaracha, La Cucharacha, ya no puede caminar, porque no tiene, porque no tiene las patitas detrás. Assim era o senhor Nicolás. Patriarca na mais pura concepção da palavra, jamais permitindo que um filho seguisse seu próprio caminho, exigindo que todos estivessem sempre ao seu lado, debaixo de sua asa. Um pouco cruel essa postura, mas ele defendia que família jamais deveria se desgarrar. Prejudicou o futuro de sua prole direta, impediu o sonho de cada um, a carreira imaginada, os voos solos. Assim era ele. Mas também era justo e jamais permitia, por exemplo, que uma nora levasse vantagem sobre as demais. Ao saber que um filho havia dado um regalo à esposa, prontamente providenciava o mesmo para aquela que não havia ganhado nada. Não fazia isso com todas (eram cinco noras e uma filha), mas só com aquelas que ele realmente amava. Também prometera deixar para o neto mais velho, com quem mais conviveu, o Galaxie como herança. O carro tinha três anos de uso quando yayo Nicolás nos deixou, mas seu desejo não foi cumprido. Quando se morre nem sempre a família atende os desejos de quem partiu. Infelizmente. Enfim, minhau, minhau, minhau, balalam, balalam, balalam. Pam pararampam, pam pam !

terça-feira, 13 de março de 2012

Maria del Pilar, La Pequeña

Lembro-me tão fortemente de minha avó. A primeira yaya que conheci na vida. Apesar de ter tido seus filhos (doze) bem jovem, a imagem que sempre tive dela é de uma senhorinha pequenina, vaidosa e... arretada. Gostava de uma confusão. Embora fosse a personagem principal da muvuca, era mestre em se tornar espectadora diante do caos que armava. As noras eram suas preferidas para jogar a rede de fofoca sobre elas e, literalmente, ver o circo pegar fogo. Jamais esteve no epicentro do arranca-rabo, mas todos sabiam que era ela a causadora de tudo, mas deixavam pra lá.

Essa yaya era expert em colocar apelidos. Logicamente, jamais nomeava a pessoa diretamente, Tinha a Sargento, por seu estilo militar de se portar, a Maria Mole, por sua fala baixinha e tenra, a Fufu, que adorava ficar no portão xeretando e falando da vida dos outros, a Urubu (por causa da pele), La Chuleta (esta porque minha avó, espanhola de pura cepa, não conseguia pronunciar Zuleica) e assim por diante. Adorava fazer caras e bocas, sempre pelas costas da pessoa zombada. Os netos adoravam isso.

Ela mesma não se levava a sério. Para confundir os netos (16), dizia chamar-se Maria Lopez Oliva. No ano seguinte, era Dolores. No próximo, já se tornava Maria del Pilar. Sempre com cabelos pretos, olhos de oliva preta, sobrancelhas arqueadas, jamais acreditei que um dia ela tivesse sido loura, olhos azuis (ou verdes) e 1m90, como frisava sempre que zombávamos de seu 1m40. Pura broma dessa espanhola de Collblanc, subúrbio de Barcelona, que levava a vida da maneira mais alto astral possível. Pelo menos nunca a vi se queixar de nada. E olha que a vida não lhe foi fácil. Sobrevivente da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), teve de encarar sozinha, com los crios pequeños, os apuros de um generalíssimo lunático que tomou o poder à força. Depois, os apuros da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Já havia encarado os temores da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Três guerras na vida dessa guerreira nascida no cabalístico 4/4/1904. O marido, envolto com a guerrilha, aparecia quando ganhava folga (ou deserdava) e sempre estava num rincão de difícil acesso. Ela e a prole se viraram como puderam, migrando conforme o rebelde militar era transferido. Até na França essa pequena foi parar, onde deu à luz a mais um varão. Foi o 11º nascido. Nessa dura caminhada, seis faleceram.

Pouco sei de sua origem, de sua família, ou esqueci diante de tantos fatos que envolvem a matriarca dos Nicolás. Contaram-me que ela era muito moderna para seu tempo. Mal saída da menarca já estava a se deitar com seu Pepe, meu avô.

Bem, os episódios ocorridos em sua odisseia em terras espanholas e francesas foram tantos, que culminaram na vinda da família (agora, reduzida ao casal e seis filhos) para o Brasil. Aqui, em terras sulsancaentanenses ela virou Dona Dolores, Dona Maria e até Dona Yaya, isso a partir do nascimento do primeiro neto, em 1955. Yaya tinha atitudes que eram só delas, como presentear as noras no Natal com dúzia de panos de louça feitos de sacos de farinha de trigo e com bainha de crochê feita por ela. As netas ganhavam camisolas em tamanho gigantesco, ou seguidos anos jogos de panelinhas para brincar de casinha. Mesmo as pré-adolescentes recebiam seu estojo de xícaras, pratos, talheres de plásticos cor-de-rosa. Os meninos ganhavam dúzias de cuecas, ou cuecões. Ela não tinha muita noção de tamanho ou de praticidade. Creio que fazia de uma vez todas as compras dos presentes de Natal de anos seguidos. Apesar disso, era uma farra para nós, netos, passar os domingos e as datas comemorativas em sua casa. Afinal, os yayos moravam nos fundos do comércio de metais da família, o famoso ferro-velho 28 de Julho, até hoje em funcionamento ali no bairro Fundação, na rua do mesmo nome, que garantiu o sustento e a formação acadêmica da terceira geração Nicolás. Adorávamos mexer no cobre, no alumínio, no latão de moedas antigas, nas bugigangas que sempre apareciam e ficavam expostas em prateleiras. Artistas plásticos iriam ao delírio diante de tanta peça acumulada em um único espaço. Hoje, descobertos os ferros-velhos, esse garimpo já é comum e não raro se veem nas vitrines ferros retorcidos a preços exorbitantes.

O encontro dominical, geralmente, era regado a paella (em fogo de lenha), vermute com soda (para os adultos) e guaraná caçulinha para a garotada. Não faltavam os tremoços, o amendoim e o salame. Tinha ainda a caça às balas e chocolates, que ela escondia para que o yayo não devorasse o pote inteiro (era diabético).

E o presépio... Jamais me esquecerei desse presépio, montado na área da entrada social da casa. Um espaço envidraçado, vasos com antúrio e canteiros com hortênsias, a cadeira de balanço de alumínio e outras duas de ferro e estofado, fazendo jogo com a mesa de vidro. No chão, as peças do cenário do nascimento de Jesus. A cada domingo (ou se viesse durante a semana), um dos netos mexia as peças em direção à manjedoura. Tudo com a supervisão da yaya, que, apesar de fuleira, era bem rigorosa quanto as suas coisas. Certa vez, um touro de bronze sumiu de sua casa. Isso quando já viúva e residia num apartamento de um dormitório, também no Fundação. Para ela, os espivetados Fernando e Pedro jogaram a peça pela janela. Eles nunca admitiram isso. Vai saber... Mas que o touro sumiu, sumiu sim.

Festa era com ela mesma. Adorava aquela balbúrdia de crianças correndo, das noras ajudando no almoço e lavando aquele mundaréu de louça (dezenas de copos Nadir Figueiredo) e os homens falando alto, discutindo futebol, negócios ou contando piadas. Se decidiam que almoçaríamos fora, então, não esquecia sua sacola de lona (tão em moda hoje, em tempos de preservação do meio ambiente) e lá ia ela carregando frutas e amendoim. Isso mesmo, mal os garçons tiravam os pratos e yaya se incumbia de despejar na mesa bananas, maçãs, peras e... amendoim. Como esse povo gostava de amendoim! Mas tinha de ser aquele de casca, para fazer bastante sujeira à mesa.

Ao completar 80 anos, a festa de seu aniversário aconteceu no restaurante do Ceasa. Ela foi levada de surpresa para o local, onde encontrou já a postos para o tradicional Parabéns a Você filhos, noras, netos e bisnetos. Tinha alguns agregados também, como um chileno amigo do tio caçula, que tomou todas e acabou a festa todo maquiado e de bode num canto da mesa. Na chegada ao local, yaya estranhou o excesso de pessoas, reclamando que não os conhecia. Eram frequentadores comuns do restaurante, que ali estavam para saborear a inesquecível sopa de cebola. Nada a ver com a festa de Dona Yaya, que, ao ouvir a música vinda do palco, na voz de Lucho Gatica, passou a rebolar o esqueleto, franzino, mas firme para mais uma farra em sua vida.

Só vi a Yaya triste em duas ocasiões. Na morte do Yayo Nicolás, em 1973, e quando a gangrena na perna resultou, em princípio, na amputação do pé, depois parte da perna e, por fim, a perna toda. Quando a doença atacou de vez (diabetes é fogo), por uma cutícula mal tirada, que lesionou o dedão, ela ainda passou uma temporada nas casas dos filhos caçulas, mas já demonstrava tristeza porque seu cabelo estava branquinho (não conseguia se locomover para pintá-los de negro vistoso), não conseguia passar pó-de-arroz no rosto e nem o batom. Nessa fase, comecei a me despedir dela. Os olhos, antes tão vivos, já eram de entrega, de despedida. A vi em vida pela última vez na cama de um hospital, completamente entregue e delirando. Quando os médicos decidiram amputar o resto da perna sabia que ela não voltaria mais. Era 1º de outubro de 1987. Naquela madrugada, yaya nos disse adeus. Hoje, somos órfãos da primeira geração dos Nicolás, mas a alegria dela está presente em fotos e na fita de seus 80 anos. És inesquecível, Maria Del Pilar, La Pequeña!

segunda-feira, 12 de março de 2012

A QUARTA IDADE.



Respeite-a, admire-a, ame-a. Você vai chegar nela um dia


Devemos encarar o tempo com serenidade, com naturalidade. A trajetória da vida é essa: sem percalços pelo caminho rumo à velhice. Não é fácil. Tenta-se manter a cabeça lúcida e focada no passar dos dias e anos, mas percebe-se o peso da idade. A viscosidade já não é a mesma, as marcas do tempo saltam no rosto, nas mãos, no pescoço... A pele não é tão elástica e úmida. Mas nada se compara à mente, à atividade cerebral. O motor começa a ratear.

Não queremos acreditar nessa situacão quando ela se apresenta diante de nossos olhos não queremos acreditar nem aceitar. Mas o tempo é cruel na idade mais tenra de nossa existência. Em nosso banco de dados cerebral, os mais velhos são preservados tal qual desejamos, com seus vigores, mobilidades, rapidez mental e física, enfim, superheróis, imortais.

O que mais incomoda (talvez não seja esse o verbo adequado) é testemunhar a falta de paciência. E entre eles. Qualquer coisinha é motivo para desavença, bate-boca, palavra mais áspera. É entrar em casa com os sapatos sujos, é a cachorra que resolveu cavar na jardineira ou comer as plantas, é a toalha branquinha de rosto estampada com marcas de mãos mal lavadas, é o futebol na TV bem na hora do sacolão. É o vai e bem noturno no banheiro, porque a bexiga já não segura até o amanhecer. E assim por diante. Picuinhas bobas que passariam sem alardes se o peso dos anos não estivesse a cobrar a fatura. Um principio de depressão? Talvez isso seja corriqueiro na quarta de idade.

Não, não há estresse nem preocupação com a repetição de falas, de narrativas. Isso faz parte da quarta idade. O cérebro já não é um arquivo organizado e ágil para impedir o refrão do enredo. Há, sim, tristeza diante da certeza que o tronco está envelhecido, o caule envergado e as folhas pouco viscosas. É a lei da vida cobrando seu prazo de validade.

Atravessamos os anos com a única certeza que não somos eternos. Todos sabemos disso, mas nos recusamos a pensar (e a aceitar) no desencarne, na partida que, por mais cientes que sejamos, é por demais dolorida. Dia após dia uma folha cai. E a árvore tão vistosa ontem é franzina hoje, cambaleante ao vento, queimada pelo sol e constipada pela chuva do tempo.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O casamento de minha mãe. Com o irmão


Do convés, ela olhou para o cais, para as pessoas que acenavam, pais e irmãos. Olhou para sua Barcelona, para o monumento de Cristóvão Colombo, o descobridor das Américas, apontando para o novo mundo. Olhou para a estátua, olhou para a direção onde o dedo dele apontava. Suspirou. Estava indo para esse novo mundo, completamente desconhecido, sem qualquer referência, apenas um horizonte, um porto seguro: o noivo (marido por procuração) a aguardava no Brasil. Olhou mais uma vez para sua família, para sua Barcelona, cerrou os olhos. Era a última vez que os veria.
Loucura. Não há palavra mais exata para definir seu gesto. Abandonar a tudo e a todos e seguir seu coração para uma terra desconhecida, subdesenvolvida, convivendo com pessoas e com uma família das quais não tinha a menor afinidade. Longe, bem longe da segurança dos pais. Isso com apenas 22 anos recém-completados. Enfim, o amor faz coisas que foge a compreensão.
O navio zarpou, levando na mala bastante saudades e um vestido de noiva. O mesmo usado dias atrás em sua cerimônia religiosa. Isso mesmo. Ela casou em Barcelona. Com seu próprio irmão. O catalanot Ramón Olmos Juliá não permitiria que sua primogênita deixasse a Espanha sem um compromisso matrimonial sacramentado perante as leis dos homens e de Deus. Só sairia de lá casada. Mas o noivo já estava em São Paulo, do outro lado do oceano. Em 1954 era praticamente inviável arcar com os custos da passagem marítima. Imagine ir e voltar? Quem veio se sacrificou muito para pagar as despesas e demorou muito para regressar à terra natal.
Bem, enfim, Rosita só sairia casada. Coube ao irmão fazer-se passar pelo noivo, oficialmente ali presente por meio de uma carta de representação legalmente reconhecida pela Justiça. Tudo certo? Que nada. El señor Ramón era irredutível: casamento tem de ser na igreja, véu, grinalda, padre. Tem de ter recepção aos convidados. Feito.
As fotos que marcam o momento com o qual sonham todas as moçoilas são hilárias. Rosita, de noiva, entrando na igreja, conduzida por seu pai; no altar, o irmão, no papel de noivo, com cravo na lapela, mãos geladas, suor na testa. Representando bem o personagem. Nos bancos, familiares e convidados. Nos corredores, o fotógrafo em busca dos melhores ângulos. E assim foi oficializada a união de Rosita e Agustin (ou melhor, Cayetano).
Ao pé da letra, minha mãe casou-se com meu tio, irmão dela, portanto, ele pode ser ao mesmo tempo padrasto e tio. Meu tio casou-se tempos depois. Assim ele é bígamo, enganando a Igreja e o juiz de paz. Minha tia, nesse caso, é a outra ao mesmo tempo em que é também a cunhada. As irmãs de minha mãe são cunhadas do irmão e também, por outro ângulo, cunhadas da irmã. E meus avós, simultaneamente, pais e sogros de minha mãe e de meu tio, no caso irmão e marido de minha mãe, meu tio e meu padrasto.
Confuso? Verdade. Mas assim é a família Nicolás Olmos. Desde o primeiro olhar entre Rosita e Tanin muita água rolou. E põe água nisso. Afinal, a princesinha de Barcelona trocou aquele paraíso todo pelo subúrbio de São Paulo, onde a água do Rio Tamanduateí costumava visita-la pelo ralo e pela janela da sala. Mas isso fica para os próximos capítulos.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

NOSSOS CÃES




Cachorro sempre foi personagem na família Nicolás Olmos. Incrível como amamos essa persona, que tem provado ao longo dos séculos ser mais fiel que o próprio homem. Para ele não há tempo ruim. Tudo é motivo de festa, está sempre abanando o rabo (quando o tem), sempre disposto a dar e receber carinho. É companheiro de todas as horas, faça sol, chuva ou enchente.

Lembro-me do Dique, um capa preta amoroso, que uivava sempre que meu pai se aproximava de casa, vindo do trabalho. Tanto ele quanto a sirene da GM, que soava às 18h, eram os sinais da chegada do progenitor da família. Sinal para largamos o que estivéssemos fazendo para abrir a porta da garagem para que meu pai entrasse com o carro. Naquele tempo não tinha portão automático. Dique era um belo cão de guarda. Adorado pela vizinhança. Tanto que em sua morte, em plena noite de Natal, a criançada da rua chorou e em cortejo do qual não me esqueço participou em bom número da cerimônia de enterro, no terreno perto de casa, onde hoje reside meu amigo Humberto Pastore.

A família sempre teve cães. Ainda pequena tínhamos o Nero. Na verdade, era cão de minha yaya. Safado esse vira latão. Adorava ir ao açougue do seo Zé e, na vacilada do açougueiro, surrupiava peças enormes de carne e, com o troféu à boca, corria para casa. Lógico que com o seo Zé no encalço. Cabia à minha vó ou quem quer que estivesse em casa pagar pelo tecão de carne pego por Nero. O cachorro, aliás, adorava fazer a família correr, principalmente nos festejos juninos. Sem medo, ele fica de espreita à espera de alguém que jogasse bombinhas (não sei se eram fogos Caramuru) no chão. Prontamente, ele pegava o apetrecho e trazia de volta, colocando-o aos pés da família que, prontamente, tratava de fugir dali, antes do estouro da pólvora.

Não sei se foi ele ou o Dique que acabou com o rabo de um gato. Um felino pentelho que adorava desafiá-lo, desfilando pelo quintal. O cão correu atrás dele, mas o gato, ágil, sempre dava um jeito de escapar. Até que um dia o cachorro foi mais rápido e, quando o felino saiu em desabalada carreira rumo a um buraco no muro, perdeu o rabo, que ficou na boca do cão de casa. Dias depois vimos o gato andando por cima do muro (nunca mais se atreveu a pisar no quintal) sem seu imponente rabo.

Depois do Dique, no auge da Jovem Guarda, chegaram Roberto Carlos e Wanderléia, dois filhotes vira-latas salvo das águas ainda não poluídas do Tamanduateí. Minha yaya, que adorava recolher SRD na rua, tinha o péssimo hábito de se livrar dos filhotes no rio. Sorte deles que, sempre que víamos minha avó com a sacola, a seguíamos para recuperar a ninhada de dentro do saco. Em uma dessas vezes resolvemos pegar dois filhotes, justamente os astros do programa da Record. O Rei e a Ternurinha foram escondidos para nossa casa, até que dobrássemos nossa mãe. Questão de poucas horas até ela se acalmar e se apaixonar. Sempre foi assim.

Quando Brasa chegou, um oponente pastor alemão, descendente do Lobo (aquele do Vigilante Rodoviário), foi amor à primeira vista. Treinado por um policial militar (dizem que ele fez parte do Canil da PM), Brasa era uma candura. Ao som de uma música, fica em duas patas e, abraçado a um de nós, dançava. Fingia-se de morto, entendia palavras de comando. Um doce. Vivia na rua e, às 18h, na hora da sirene da GM, entrava em casa. E coitado daquele que se atrevesse a encostar no portão. Mordida na certa. Até seu ex-dono foi mordido na pena. Atreveu-se a entrar e... nhaque... dentes na coxa. Brasa amava minha mãe, mas era nosso defensor. Costumávamos brincar no quintal fingindo que ela nos batia. Ele se levantava e segurava sua mão, sem machucar, mas com firmeza suficiente para que ela (no fingimento) não conseguisse nos bater.

Brasa amava futebol. Jogava no quintal e ficava alucinado no portão ao ver as peladas na rua. Até que um dia, quando o portão foi aberto, escapou e foi direto em direção à bola, que batia no peito do moleque Kiko. Estrago: barriga perfurada por dentes. Nada grave, felizmente, mas foi cômico ver toda a molecada pulando muros e subindo em árvores para escapar do Brasa. O doce animal que convivia bem na rua virava fera diante de uma bola e ao anoitecer. Nessas duas situações era bom ficar bem longe dele. Era irracional. Exceto com a família.
Tivemos também o Uri, um ovelheiro vindo filhote diretamente do Rio Grande do Sul. Parecia um novelo de lã. E é lógico que para dobrar mamãe, que estava na praia quando da chegada do bebê, coloquei-o numa caixa de sapato, coberto por um cobertor de lá de ovelha. Não dava para saber quem era quem, tão iguais. A caixa ficou no escritório, minha mãe nem se atentou ao fato, exceto quando o cobertor começou a andar. Era Uri se apresentando. Ele era tão fofo, mas tão fofo, que tomava banho com xampu e condicionador humanos. E ficava uma delícia. Adorava uma poltrona que havia no quintal, onde pedíamos que se sentasse enquanto lavávamos o quintal. Quantas vezes esquecemos de autorizar sua descida e ele passava horas ali, sentado, à espera da liberação.

Teve também a Debby, uma Cocker dourada, que adorava ficar em cima da churrasqueira e também recolhia as meias fedidas do meu filho Lucas, que até hoje as deixa espalhadas pela casa. Como companhia a ela, chegou tempos depois a Gretha, uma dog alemã cinzenta, raquítica e horrorosa. Bom trato, carinho e comida de boa qualidade a transformaram em uma Gisele Bündchen, com andar formoso, altura esplendorosa, pele brilhante e uma índole fantástica. Ela serviu, inclusive, de pônei para os netos dos yayos. Adorava as crianças. As duas cadelas se amavam, dormiam juntas, passeavam juntas e cuidavam de meus pais juntas. Até quando a Gretha teve filhotes, lá estava a Debby a ajudá-la a limpar a cria. As duas partiram desta vida em curto espaço de tempo entre uma e outra. Eram unidas até nisso, deixando, principalmente, minha mãe desolada.

Há oito anos veio a Tina, outra pastora alemã. Minha mãe gosta desta raça. Destrambelhada, temperamental, com síndrome do pânico, Tina era uma louca. Os agregados da família (namorados dos netos) e visitantes eram proibidos de entrar em casa, a não ser pela porta da sala. Tina tinha personalidade forte: se gostava, gostava mesmo; se detestava, não tinha papo. Dentes à mostra. Ela fez, inclusive, o tintureiro perder freguesa antiga, no caso minha mãe. Certa vez, ela escapou no exato momento em que ele entregava roupa em casa. Pobre do japonês: deu umas 10 volta em torno do carro, com a Tina atrás dele. Burro. Bastava largar a roupa, pois a cachorra sabia que a peça pertencia à minha mãe e, como cão de guarda, tinha de impedir o que imaginou ser um roubo. Acho que o japonês está correndo até agora.

Hoje, o casal Rosa-Cayetano está ninando a Nina. Parece que após trocentos nomes, Nina foi o aprovado. Ainda bem, pois meu pai queria chamá-la de Barça, em homenagem ao campeão mundial Barcelona. Como já dito acima, eles adoram pastor-alemão. E Nina é uma autêntica representante da raça. Tem apenas quatro meses, mas por suas patas dá para imaginar seu porte futuro. É uma mistura de Dique, Brasa, Tina e de todos os outros que já passaram pelo quintal da Rua Ribeirão Preto e que ajudaram a escrever a história da família Nicolás Olmos, que, como se pode comprovar, adora cachorros.

PS: todos os filhos do casal Rosa-Cayetano também constituíram famílias tendo cachorros em seu habitat. Eu, por exemplo, tenho o Zeh, um Cocker branco-dourado, recolhido da rua por minha amiga Jacqueline Lattari e que há oito anos é o membro mais importante de casa, por sua lealdade, fidelidade, alegria e afeto. Eu te amo, Zeh.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Feliz aniversário, pai

No mesmo dia em que o mundo festeja o término de mais um ano, alguém muito especial festejará mais um ano de vida. Especial para mim, sua filha, especial para todos os seus filhos, especial para os netos, especial para os bisnetos, irmãos, cunhadas, sobrinhos, amigos. Neste 31 de dezembro, antes da chegada do réveillon, você, meu pai, é reverenciado como o melhor pai do mundo. E como diz o Ramón, se nos fosse dada a oportunidade de escolher quem gostaríamos de ter como progenitor, não há dúvidas: você, meu pai. Por isso, nesta data tão importante, OBRIGADA por...

Por ter me entendido enquanto eu crescia
e por ter aceitado minhas tão rápidas mudanças.
Deve ter sido difícil manter-se em calma comigo,
mas você sempre tentou e quase sempre conseguiu.

Por ter me ouvido e ter me dado claras e breves respostas
às dúvidas e perguntas que eu levava a você.
Por ter reforçado minha confiança para continuar
revelando meus pensamentos e sentimentos.

Por ter me aplaudido quando fui verdadeiro,
por ter me compreendido quando eu disse mentiras,
por ter me provado que elas maculam nosso caráter.

Por ter me falado sobre os seus erros e sobre
as coisas que você aprendeu com eles.
Isso fez com que eu aceitasse meus próprios
erros, que também aprendesse e que me perdoasse.

Por prestar-me atenção e gastar tão grande
parte do seu tempo comigo.
Isso levou-me a acreditar que sou importante
e que tenho muito valor.

Por agir sempre do modo que desejou que eu agisse.
Foi assim que você me deu um modelo positivo para seguir.

Por confiar em mim e me respeitar mesmo
quando eu era menor do que você.
Por ter considerado meus sentimentos e necessidades,
e ter me mostrado muitas vezes
que elas eram semelhantes às suas.

Pelos elogios e pelos incentivos.
Foi sempre por isso que eu me senti bom
e quis continuar sendo digno da sua fé em mim.

Por ajudar-me a explorar meus talentos e potenciais.
Por ter me ensinado que para ser feliz
eu tinha que ser eu mesmo e não como você
ou igual a outros que você admirava.

Por ser você mesmo e por não desistir da felicidade.
Com isso eu aprendi a buscar uma vida feliz,
bem sucedida e satisfatória.

Obrigado, Pai
Por sempre ter me ouvido.

Ouça-me mais uma vez agora :
EU AMO VOCÊ, PAI!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Mais um... ou melhor, mais uma





A cena se repete há anos. Todos reunidos, falando ao mesmo tempo, sorvendo goles e goles de vinho, rindo, comendo, bebendo, rindo, comendo. Assim tem sido a ceia de Natal em família. Muita gente, uma mistura de famílias, de ideias, conceitos e comportamentos. A cada data, uns aparecem, outros se ausentam, novidades chegam. Desta vez, registrada a presença do mais novo integrante: Isabella, de apenas 10 dias.

Lógico, está alheia ao burburinho no andar de baixo. Todos, no entanto, não estão alheios a ela. Pelo vídeo-babá, a cada instante um olhar ao monitor para vê-la. Sono profundo, pernas entrelaçadas e braços recolhidos junto ao rosto. Não está nem aí para a missa do Galo. Nem para o camarão ao thermidor (por que será que tem esse nome?), as lulas na tinta ou para o bacalhau (ou essência de, segundo Ramón, para provocar a cozinheira) afogado no azeite, pernil, peru, maionese e quatro quilos de panetone.

Isabella integra a quarta geração dos Nicolás. Chega mansinha, quieta, silenciosa. Pequenina. Não se a referência for a mãe. Em poucos anos, já a terá ultrapassado, com certeza. Incrível, mas essa família nunca envelhece: sempre tem rebento a assegurar a fonte da juventude do clã, uma espécie de fonte Ponce de Leon. Uma odisseia, por enquanto, de 80 anos, entre o bisavô (ou yayo-yayo) e a mais recente princesinha.

Por um instante, na mente de todos passa um filme. De como tudo começou, de como cada um foi entrando no clã, uns por laços sanguíneos, outros por laços afetivos, todos, enfim, por laços de nós tão apertados que jamais se soltarão. Os patriarcas, entre garfadas de macarrão de frango e pãozinho com berinjela, olham com admiração a prole constituída. Constituída em forma de fortaleza, cada qual enveredando por um caminho em trilhas bem assentadas e sem armadilhas. Orgulho, satisfação de quem apostou firmar a bandeira familiar em terras tupiniquins numa aventura desconhecida pós-guerra civil espanhola.

Do navio zarpando do porto de Barcelona, olhando para cais e para os parentes que ali ficaram, passaram-se 56, 57, 58 anos. O medo da partida diluiu-se nas águas do Atlântico, transformando a terra do Pau-Brasil em solo fértil, de conquista, de engrandecimento, de construção. A construção de uma família de 0 a 80 anos de vidas. Uma família sempre em construção, porque a quarta geração não termina com Isabella.