segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Mais um... ou melhor, mais uma





A cena se repete há anos. Todos reunidos, falando ao mesmo tempo, sorvendo goles e goles de vinho, rindo, comendo, bebendo, rindo, comendo. Assim tem sido a ceia de Natal em família. Muita gente, uma mistura de famílias, de ideias, conceitos e comportamentos. A cada data, uns aparecem, outros se ausentam, novidades chegam. Desta vez, registrada a presença do mais novo integrante: Isabella, de apenas 10 dias.

Lógico, está alheia ao burburinho no andar de baixo. Todos, no entanto, não estão alheios a ela. Pelo vídeo-babá, a cada instante um olhar ao monitor para vê-la. Sono profundo, pernas entrelaçadas e braços recolhidos junto ao rosto. Não está nem aí para a missa do Galo. Nem para o camarão ao thermidor (por que será que tem esse nome?), as lulas na tinta ou para o bacalhau (ou essência de, segundo Ramón, para provocar a cozinheira) afogado no azeite, pernil, peru, maionese e quatro quilos de panetone.

Isabella integra a quarta geração dos Nicolás. Chega mansinha, quieta, silenciosa. Pequenina. Não se a referência for a mãe. Em poucos anos, já a terá ultrapassado, com certeza. Incrível, mas essa família nunca envelhece: sempre tem rebento a assegurar a fonte da juventude do clã, uma espécie de fonte Ponce de Leon. Uma odisseia, por enquanto, de 80 anos, entre o bisavô (ou yayo-yayo) e a mais recente princesinha.

Por um instante, na mente de todos passa um filme. De como tudo começou, de como cada um foi entrando no clã, uns por laços sanguíneos, outros por laços afetivos, todos, enfim, por laços de nós tão apertados que jamais se soltarão. Os patriarcas, entre garfadas de macarrão de frango e pãozinho com berinjela, olham com admiração a prole constituída. Constituída em forma de fortaleza, cada qual enveredando por um caminho em trilhas bem assentadas e sem armadilhas. Orgulho, satisfação de quem apostou firmar a bandeira familiar em terras tupiniquins numa aventura desconhecida pós-guerra civil espanhola.

Do navio zarpando do porto de Barcelona, olhando para cais e para os parentes que ali ficaram, passaram-se 56, 57, 58 anos. O medo da partida diluiu-se nas águas do Atlântico, transformando a terra do Pau-Brasil em solo fértil, de conquista, de engrandecimento, de construção. A construção de uma família de 0 a 80 anos de vidas. Uma família sempre em construção, porque a quarta geração não termina com Isabella.

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