terça-feira, 13 de março de 2012

Maria del Pilar, La Pequeña

Lembro-me tão fortemente de minha avó. A primeira yaya que conheci na vida. Apesar de ter tido seus filhos (doze) bem jovem, a imagem que sempre tive dela é de uma senhorinha pequenina, vaidosa e... arretada. Gostava de uma confusão. Embora fosse a personagem principal da muvuca, era mestre em se tornar espectadora diante do caos que armava. As noras eram suas preferidas para jogar a rede de fofoca sobre elas e, literalmente, ver o circo pegar fogo. Jamais esteve no epicentro do arranca-rabo, mas todos sabiam que era ela a causadora de tudo, mas deixavam pra lá.

Essa yaya era expert em colocar apelidos. Logicamente, jamais nomeava a pessoa diretamente, Tinha a Sargento, por seu estilo militar de se portar, a Maria Mole, por sua fala baixinha e tenra, a Fufu, que adorava ficar no portão xeretando e falando da vida dos outros, a Urubu (por causa da pele), La Chuleta (esta porque minha avó, espanhola de pura cepa, não conseguia pronunciar Zuleica) e assim por diante. Adorava fazer caras e bocas, sempre pelas costas da pessoa zombada. Os netos adoravam isso.

Ela mesma não se levava a sério. Para confundir os netos (16), dizia chamar-se Maria Lopez Oliva. No ano seguinte, era Dolores. No próximo, já se tornava Maria del Pilar. Sempre com cabelos pretos, olhos de oliva preta, sobrancelhas arqueadas, jamais acreditei que um dia ela tivesse sido loura, olhos azuis (ou verdes) e 1m90, como frisava sempre que zombávamos de seu 1m40. Pura broma dessa espanhola de Collblanc, subúrbio de Barcelona, que levava a vida da maneira mais alto astral possível. Pelo menos nunca a vi se queixar de nada. E olha que a vida não lhe foi fácil. Sobrevivente da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), teve de encarar sozinha, com los crios pequeños, os apuros de um generalíssimo lunático que tomou o poder à força. Depois, os apuros da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Já havia encarado os temores da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Três guerras na vida dessa guerreira nascida no cabalístico 4/4/1904. O marido, envolto com a guerrilha, aparecia quando ganhava folga (ou deserdava) e sempre estava num rincão de difícil acesso. Ela e a prole se viraram como puderam, migrando conforme o rebelde militar era transferido. Até na França essa pequena foi parar, onde deu à luz a mais um varão. Foi o 11º nascido. Nessa dura caminhada, seis faleceram.

Pouco sei de sua origem, de sua família, ou esqueci diante de tantos fatos que envolvem a matriarca dos Nicolás. Contaram-me que ela era muito moderna para seu tempo. Mal saída da menarca já estava a se deitar com seu Pepe, meu avô.

Bem, os episódios ocorridos em sua odisseia em terras espanholas e francesas foram tantos, que culminaram na vinda da família (agora, reduzida ao casal e seis filhos) para o Brasil. Aqui, em terras sulsancaentanenses ela virou Dona Dolores, Dona Maria e até Dona Yaya, isso a partir do nascimento do primeiro neto, em 1955. Yaya tinha atitudes que eram só delas, como presentear as noras no Natal com dúzia de panos de louça feitos de sacos de farinha de trigo e com bainha de crochê feita por ela. As netas ganhavam camisolas em tamanho gigantesco, ou seguidos anos jogos de panelinhas para brincar de casinha. Mesmo as pré-adolescentes recebiam seu estojo de xícaras, pratos, talheres de plásticos cor-de-rosa. Os meninos ganhavam dúzias de cuecas, ou cuecões. Ela não tinha muita noção de tamanho ou de praticidade. Creio que fazia de uma vez todas as compras dos presentes de Natal de anos seguidos. Apesar disso, era uma farra para nós, netos, passar os domingos e as datas comemorativas em sua casa. Afinal, os yayos moravam nos fundos do comércio de metais da família, o famoso ferro-velho 28 de Julho, até hoje em funcionamento ali no bairro Fundação, na rua do mesmo nome, que garantiu o sustento e a formação acadêmica da terceira geração Nicolás. Adorávamos mexer no cobre, no alumínio, no latão de moedas antigas, nas bugigangas que sempre apareciam e ficavam expostas em prateleiras. Artistas plásticos iriam ao delírio diante de tanta peça acumulada em um único espaço. Hoje, descobertos os ferros-velhos, esse garimpo já é comum e não raro se veem nas vitrines ferros retorcidos a preços exorbitantes.

O encontro dominical, geralmente, era regado a paella (em fogo de lenha), vermute com soda (para os adultos) e guaraná caçulinha para a garotada. Não faltavam os tremoços, o amendoim e o salame. Tinha ainda a caça às balas e chocolates, que ela escondia para que o yayo não devorasse o pote inteiro (era diabético).

E o presépio... Jamais me esquecerei desse presépio, montado na área da entrada social da casa. Um espaço envidraçado, vasos com antúrio e canteiros com hortênsias, a cadeira de balanço de alumínio e outras duas de ferro e estofado, fazendo jogo com a mesa de vidro. No chão, as peças do cenário do nascimento de Jesus. A cada domingo (ou se viesse durante a semana), um dos netos mexia as peças em direção à manjedoura. Tudo com a supervisão da yaya, que, apesar de fuleira, era bem rigorosa quanto as suas coisas. Certa vez, um touro de bronze sumiu de sua casa. Isso quando já viúva e residia num apartamento de um dormitório, também no Fundação. Para ela, os espivetados Fernando e Pedro jogaram a peça pela janela. Eles nunca admitiram isso. Vai saber... Mas que o touro sumiu, sumiu sim.

Festa era com ela mesma. Adorava aquela balbúrdia de crianças correndo, das noras ajudando no almoço e lavando aquele mundaréu de louça (dezenas de copos Nadir Figueiredo) e os homens falando alto, discutindo futebol, negócios ou contando piadas. Se decidiam que almoçaríamos fora, então, não esquecia sua sacola de lona (tão em moda hoje, em tempos de preservação do meio ambiente) e lá ia ela carregando frutas e amendoim. Isso mesmo, mal os garçons tiravam os pratos e yaya se incumbia de despejar na mesa bananas, maçãs, peras e... amendoim. Como esse povo gostava de amendoim! Mas tinha de ser aquele de casca, para fazer bastante sujeira à mesa.

Ao completar 80 anos, a festa de seu aniversário aconteceu no restaurante do Ceasa. Ela foi levada de surpresa para o local, onde encontrou já a postos para o tradicional Parabéns a Você filhos, noras, netos e bisnetos. Tinha alguns agregados também, como um chileno amigo do tio caçula, que tomou todas e acabou a festa todo maquiado e de bode num canto da mesa. Na chegada ao local, yaya estranhou o excesso de pessoas, reclamando que não os conhecia. Eram frequentadores comuns do restaurante, que ali estavam para saborear a inesquecível sopa de cebola. Nada a ver com a festa de Dona Yaya, que, ao ouvir a música vinda do palco, na voz de Lucho Gatica, passou a rebolar o esqueleto, franzino, mas firme para mais uma farra em sua vida.

Só vi a Yaya triste em duas ocasiões. Na morte do Yayo Nicolás, em 1973, e quando a gangrena na perna resultou, em princípio, na amputação do pé, depois parte da perna e, por fim, a perna toda. Quando a doença atacou de vez (diabetes é fogo), por uma cutícula mal tirada, que lesionou o dedão, ela ainda passou uma temporada nas casas dos filhos caçulas, mas já demonstrava tristeza porque seu cabelo estava branquinho (não conseguia se locomover para pintá-los de negro vistoso), não conseguia passar pó-de-arroz no rosto e nem o batom. Nessa fase, comecei a me despedir dela. Os olhos, antes tão vivos, já eram de entrega, de despedida. A vi em vida pela última vez na cama de um hospital, completamente entregue e delirando. Quando os médicos decidiram amputar o resto da perna sabia que ela não voltaria mais. Era 1º de outubro de 1987. Naquela madrugada, yaya nos disse adeus. Hoje, somos órfãos da primeira geração dos Nicolás, mas a alegria dela está presente em fotos e na fita de seus 80 anos. És inesquecível, Maria Del Pilar, La Pequeña!

segunda-feira, 12 de março de 2012

A QUARTA IDADE.



Respeite-a, admire-a, ame-a. Você vai chegar nela um dia


Devemos encarar o tempo com serenidade, com naturalidade. A trajetória da vida é essa: sem percalços pelo caminho rumo à velhice. Não é fácil. Tenta-se manter a cabeça lúcida e focada no passar dos dias e anos, mas percebe-se o peso da idade. A viscosidade já não é a mesma, as marcas do tempo saltam no rosto, nas mãos, no pescoço... A pele não é tão elástica e úmida. Mas nada se compara à mente, à atividade cerebral. O motor começa a ratear.

Não queremos acreditar nessa situacão quando ela se apresenta diante de nossos olhos não queremos acreditar nem aceitar. Mas o tempo é cruel na idade mais tenra de nossa existência. Em nosso banco de dados cerebral, os mais velhos são preservados tal qual desejamos, com seus vigores, mobilidades, rapidez mental e física, enfim, superheróis, imortais.

O que mais incomoda (talvez não seja esse o verbo adequado) é testemunhar a falta de paciência. E entre eles. Qualquer coisinha é motivo para desavença, bate-boca, palavra mais áspera. É entrar em casa com os sapatos sujos, é a cachorra que resolveu cavar na jardineira ou comer as plantas, é a toalha branquinha de rosto estampada com marcas de mãos mal lavadas, é o futebol na TV bem na hora do sacolão. É o vai e bem noturno no banheiro, porque a bexiga já não segura até o amanhecer. E assim por diante. Picuinhas bobas que passariam sem alardes se o peso dos anos não estivesse a cobrar a fatura. Um principio de depressão? Talvez isso seja corriqueiro na quarta de idade.

Não, não há estresse nem preocupação com a repetição de falas, de narrativas. Isso faz parte da quarta idade. O cérebro já não é um arquivo organizado e ágil para impedir o refrão do enredo. Há, sim, tristeza diante da certeza que o tronco está envelhecido, o caule envergado e as folhas pouco viscosas. É a lei da vida cobrando seu prazo de validade.

Atravessamos os anos com a única certeza que não somos eternos. Todos sabemos disso, mas nos recusamos a pensar (e a aceitar) no desencarne, na partida que, por mais cientes que sejamos, é por demais dolorida. Dia após dia uma folha cai. E a árvore tão vistosa ontem é franzina hoje, cambaleante ao vento, queimada pelo sol e constipada pela chuva do tempo.