quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

NOSSOS CÃES




Cachorro sempre foi personagem na família Nicolás Olmos. Incrível como amamos essa persona, que tem provado ao longo dos séculos ser mais fiel que o próprio homem. Para ele não há tempo ruim. Tudo é motivo de festa, está sempre abanando o rabo (quando o tem), sempre disposto a dar e receber carinho. É companheiro de todas as horas, faça sol, chuva ou enchente.

Lembro-me do Dique, um capa preta amoroso, que uivava sempre que meu pai se aproximava de casa, vindo do trabalho. Tanto ele quanto a sirene da GM, que soava às 18h, eram os sinais da chegada do progenitor da família. Sinal para largamos o que estivéssemos fazendo para abrir a porta da garagem para que meu pai entrasse com o carro. Naquele tempo não tinha portão automático. Dique era um belo cão de guarda. Adorado pela vizinhança. Tanto que em sua morte, em plena noite de Natal, a criançada da rua chorou e em cortejo do qual não me esqueço participou em bom número da cerimônia de enterro, no terreno perto de casa, onde hoje reside meu amigo Humberto Pastore.

A família sempre teve cães. Ainda pequena tínhamos o Nero. Na verdade, era cão de minha yaya. Safado esse vira latão. Adorava ir ao açougue do seo Zé e, na vacilada do açougueiro, surrupiava peças enormes de carne e, com o troféu à boca, corria para casa. Lógico que com o seo Zé no encalço. Cabia à minha vó ou quem quer que estivesse em casa pagar pelo tecão de carne pego por Nero. O cachorro, aliás, adorava fazer a família correr, principalmente nos festejos juninos. Sem medo, ele fica de espreita à espera de alguém que jogasse bombinhas (não sei se eram fogos Caramuru) no chão. Prontamente, ele pegava o apetrecho e trazia de volta, colocando-o aos pés da família que, prontamente, tratava de fugir dali, antes do estouro da pólvora.

Não sei se foi ele ou o Dique que acabou com o rabo de um gato. Um felino pentelho que adorava desafiá-lo, desfilando pelo quintal. O cão correu atrás dele, mas o gato, ágil, sempre dava um jeito de escapar. Até que um dia o cachorro foi mais rápido e, quando o felino saiu em desabalada carreira rumo a um buraco no muro, perdeu o rabo, que ficou na boca do cão de casa. Dias depois vimos o gato andando por cima do muro (nunca mais se atreveu a pisar no quintal) sem seu imponente rabo.

Depois do Dique, no auge da Jovem Guarda, chegaram Roberto Carlos e Wanderléia, dois filhotes vira-latas salvo das águas ainda não poluídas do Tamanduateí. Minha yaya, que adorava recolher SRD na rua, tinha o péssimo hábito de se livrar dos filhotes no rio. Sorte deles que, sempre que víamos minha avó com a sacola, a seguíamos para recuperar a ninhada de dentro do saco. Em uma dessas vezes resolvemos pegar dois filhotes, justamente os astros do programa da Record. O Rei e a Ternurinha foram escondidos para nossa casa, até que dobrássemos nossa mãe. Questão de poucas horas até ela se acalmar e se apaixonar. Sempre foi assim.

Quando Brasa chegou, um oponente pastor alemão, descendente do Lobo (aquele do Vigilante Rodoviário), foi amor à primeira vista. Treinado por um policial militar (dizem que ele fez parte do Canil da PM), Brasa era uma candura. Ao som de uma música, fica em duas patas e, abraçado a um de nós, dançava. Fingia-se de morto, entendia palavras de comando. Um doce. Vivia na rua e, às 18h, na hora da sirene da GM, entrava em casa. E coitado daquele que se atrevesse a encostar no portão. Mordida na certa. Até seu ex-dono foi mordido na pena. Atreveu-se a entrar e... nhaque... dentes na coxa. Brasa amava minha mãe, mas era nosso defensor. Costumávamos brincar no quintal fingindo que ela nos batia. Ele se levantava e segurava sua mão, sem machucar, mas com firmeza suficiente para que ela (no fingimento) não conseguisse nos bater.

Brasa amava futebol. Jogava no quintal e ficava alucinado no portão ao ver as peladas na rua. Até que um dia, quando o portão foi aberto, escapou e foi direto em direção à bola, que batia no peito do moleque Kiko. Estrago: barriga perfurada por dentes. Nada grave, felizmente, mas foi cômico ver toda a molecada pulando muros e subindo em árvores para escapar do Brasa. O doce animal que convivia bem na rua virava fera diante de uma bola e ao anoitecer. Nessas duas situações era bom ficar bem longe dele. Era irracional. Exceto com a família.
Tivemos também o Uri, um ovelheiro vindo filhote diretamente do Rio Grande do Sul. Parecia um novelo de lã. E é lógico que para dobrar mamãe, que estava na praia quando da chegada do bebê, coloquei-o numa caixa de sapato, coberto por um cobertor de lá de ovelha. Não dava para saber quem era quem, tão iguais. A caixa ficou no escritório, minha mãe nem se atentou ao fato, exceto quando o cobertor começou a andar. Era Uri se apresentando. Ele era tão fofo, mas tão fofo, que tomava banho com xampu e condicionador humanos. E ficava uma delícia. Adorava uma poltrona que havia no quintal, onde pedíamos que se sentasse enquanto lavávamos o quintal. Quantas vezes esquecemos de autorizar sua descida e ele passava horas ali, sentado, à espera da liberação.

Teve também a Debby, uma Cocker dourada, que adorava ficar em cima da churrasqueira e também recolhia as meias fedidas do meu filho Lucas, que até hoje as deixa espalhadas pela casa. Como companhia a ela, chegou tempos depois a Gretha, uma dog alemã cinzenta, raquítica e horrorosa. Bom trato, carinho e comida de boa qualidade a transformaram em uma Gisele Bündchen, com andar formoso, altura esplendorosa, pele brilhante e uma índole fantástica. Ela serviu, inclusive, de pônei para os netos dos yayos. Adorava as crianças. As duas cadelas se amavam, dormiam juntas, passeavam juntas e cuidavam de meus pais juntas. Até quando a Gretha teve filhotes, lá estava a Debby a ajudá-la a limpar a cria. As duas partiram desta vida em curto espaço de tempo entre uma e outra. Eram unidas até nisso, deixando, principalmente, minha mãe desolada.

Há oito anos veio a Tina, outra pastora alemã. Minha mãe gosta desta raça. Destrambelhada, temperamental, com síndrome do pânico, Tina era uma louca. Os agregados da família (namorados dos netos) e visitantes eram proibidos de entrar em casa, a não ser pela porta da sala. Tina tinha personalidade forte: se gostava, gostava mesmo; se detestava, não tinha papo. Dentes à mostra. Ela fez, inclusive, o tintureiro perder freguesa antiga, no caso minha mãe. Certa vez, ela escapou no exato momento em que ele entregava roupa em casa. Pobre do japonês: deu umas 10 volta em torno do carro, com a Tina atrás dele. Burro. Bastava largar a roupa, pois a cachorra sabia que a peça pertencia à minha mãe e, como cão de guarda, tinha de impedir o que imaginou ser um roubo. Acho que o japonês está correndo até agora.

Hoje, o casal Rosa-Cayetano está ninando a Nina. Parece que após trocentos nomes, Nina foi o aprovado. Ainda bem, pois meu pai queria chamá-la de Barça, em homenagem ao campeão mundial Barcelona. Como já dito acima, eles adoram pastor-alemão. E Nina é uma autêntica representante da raça. Tem apenas quatro meses, mas por suas patas dá para imaginar seu porte futuro. É uma mistura de Dique, Brasa, Tina e de todos os outros que já passaram pelo quintal da Rua Ribeirão Preto e que ajudaram a escrever a história da família Nicolás Olmos, que, como se pode comprovar, adora cachorros.

PS: todos os filhos do casal Rosa-Cayetano também constituíram famílias tendo cachorros em seu habitat. Eu, por exemplo, tenho o Zeh, um Cocker branco-dourado, recolhido da rua por minha amiga Jacqueline Lattari e que há oito anos é o membro mais importante de casa, por sua lealdade, fidelidade, alegria e afeto. Eu te amo, Zeh.