quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O rádio

Descobri recentemente de onde vem minha paixão por rádio, principalmente por programas noticiosos. Dias antes de nascer, um gatuno tentou roubar o patrimônio mais precioso que minha mãe tinha, um aparelhinho ( na realidade, um trambolhão com muitas válvulas) radiofônico que lhe fazia companhia enquanto meu pai trabalhava.

Pois bem, determinada hora de um dia, ao sair da casa da sogra (por sinal, minha avó e minha madrinha) percebeu que havia alguém no imóvel. Chamou sogro e cunhado e lá foram os três à procura do invasor. Nem precisaram buscar muito. Já com o radio Philips debaixo do braço, ele foi surpreendido no corredor que ligava as duas casas (a dela e a de meus avós).

Coitado do pé de chinelo. De cara, já tomou um piaba na orelha do meu tio Floreal e uma chave de braço de meu avó. Foi desarmado. Provavelmente tenha se urinado na calça. E apesar do barrigão de minha mãe, ela aproveitou a mobilização do Zé Mané e lascou-lhe um par de tabefes. Para amedrontar ainda mais o otário, meu avô deu dois tiros para o alto, com a arma do bandido. Apavorado, o gatuno tratou de se soltar dos Nicolás e dar o fora o mais rápido daquele quintal, daquela casa.

Deixou ali uma sacola com algumas ferramentas nova, o revólver, um pé do chinelo e... o rádio de minha mãe. Felizmente. Cresci vendo aquele rádio (com sua caixa de cor verde, depois pintado de creme) em lugar de destaque no armário da cozinha. Lembro-me do programa de Vicente Leporace (a hora do trabuco), Gil Gomes Lhes Diz, com casos policiais narrados com requintes de detalhes e envolventes (bom esse cara, o melhor apresentador de fatos policiais da imprensa nacional), Xênia e Você e tantos outros programas.

Minha mãe, assim que saía da cama, ligava seu rádio, que só emudecia ao anoitecer. Mesmo antes de nascer, convivi com ondas médias e curtas da Tupi, Nacional, Bandeirantes... Hoje, não consigo ouvir rádio o tempo todo, por força dos afazeres do trabalho, mas à noite, em meu quarto, lá está ele, no criado mudo, tagarelando as notícias mais recentes e o resumo do dia.

Não fosse o yayo, o tio Floreal e a coragem de mamãe, o ladrão teria levado o rádio e minha paixão por notícias talvez nem aflorace. E viva o rádio!