quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O casamento de minha mãe. Com o irmão


Do convés, ela olhou para o cais, para as pessoas que acenavam, pais e irmãos. Olhou para sua Barcelona, para o monumento de Cristóvão Colombo, o descobridor das Américas, apontando para o novo mundo. Olhou para a estátua, olhou para a direção onde o dedo dele apontava. Suspirou. Estava indo para esse novo mundo, completamente desconhecido, sem qualquer referência, apenas um horizonte, um porto seguro: o noivo (marido por procuração) a aguardava no Brasil. Olhou mais uma vez para sua família, para sua Barcelona, cerrou os olhos. Era a última vez que os veria.
Loucura. Não há palavra mais exata para definir seu gesto. Abandonar a tudo e a todos e seguir seu coração para uma terra desconhecida, subdesenvolvida, convivendo com pessoas e com uma família das quais não tinha a menor afinidade. Longe, bem longe da segurança dos pais. Isso com apenas 22 anos recém-completados. Enfim, o amor faz coisas que foge a compreensão.
O navio zarpou, levando na mala bastante saudades e um vestido de noiva. O mesmo usado dias atrás em sua cerimônia religiosa. Isso mesmo. Ela casou em Barcelona. Com seu próprio irmão. O catalanot Ramón Olmos Juliá não permitiria que sua primogênita deixasse a Espanha sem um compromisso matrimonial sacramentado perante as leis dos homens e de Deus. Só sairia de lá casada. Mas o noivo já estava em São Paulo, do outro lado do oceano. Em 1954 era praticamente inviável arcar com os custos da passagem marítima. Imagine ir e voltar? Quem veio se sacrificou muito para pagar as despesas e demorou muito para regressar à terra natal.
Bem, enfim, Rosita só sairia casada. Coube ao irmão fazer-se passar pelo noivo, oficialmente ali presente por meio de uma carta de representação legalmente reconhecida pela Justiça. Tudo certo? Que nada. El señor Ramón era irredutível: casamento tem de ser na igreja, véu, grinalda, padre. Tem de ter recepção aos convidados. Feito.
As fotos que marcam o momento com o qual sonham todas as moçoilas são hilárias. Rosita, de noiva, entrando na igreja, conduzida por seu pai; no altar, o irmão, no papel de noivo, com cravo na lapela, mãos geladas, suor na testa. Representando bem o personagem. Nos bancos, familiares e convidados. Nos corredores, o fotógrafo em busca dos melhores ângulos. E assim foi oficializada a união de Rosita e Agustin (ou melhor, Cayetano).
Ao pé da letra, minha mãe casou-se com meu tio, irmão dela, portanto, ele pode ser ao mesmo tempo padrasto e tio. Meu tio casou-se tempos depois. Assim ele é bígamo, enganando a Igreja e o juiz de paz. Minha tia, nesse caso, é a outra ao mesmo tempo em que é também a cunhada. As irmãs de minha mãe são cunhadas do irmão e também, por outro ângulo, cunhadas da irmã. E meus avós, simultaneamente, pais e sogros de minha mãe e de meu tio, no caso irmão e marido de minha mãe, meu tio e meu padrasto.
Confuso? Verdade. Mas assim é a família Nicolás Olmos. Desde o primeiro olhar entre Rosita e Tanin muita água rolou. E põe água nisso. Afinal, a princesinha de Barcelona trocou aquele paraíso todo pelo subúrbio de São Paulo, onde a água do Rio Tamanduateí costumava visita-la pelo ralo e pela janela da sala. Mas isso fica para os próximos capítulos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário