sexta-feira, 4 de maio de 2012
O PATRIARCA
Minhau, minhau, minhau, balalam, balalam, balalam. Minhau, minhau, minhau, balalam, balalam, balalam. Pam pararampam, pam pam...
Quem o conheceu, melhor, quem conviveu com ele, tem viva na memória essa musiquinha. Bem, musiquinha, é modo de dizer. Porque a letra era só isso, claro que com uma sonoridade que fica difícil reproduzir aqui. Mas assim era o yayo José Nicolás e sua alegria ao receber os netos em casa ou no depósito. O ferro velho Fundação. Na Rua 28 de Julho, bairro Fundação. Era ali, no sofá de plástico laranja vermelhão de sua casa, nos fundos do terreno, ou na imponente cadeira de respaldo alto, reclinável, atrás de maciça mesa de madeira, repleta de fotos, recortes de jornais, santinhos, lista de telefones da família ou de clientes, tudo protegido por grosso vidro, que ele costumava ficar. Na gerência da família. Na gerência da firma. No seu 'escritório de trabalho', tinha um enorme risque-rabisque, no qual adorávamos desenhar. E as gavetas... Na primeira ficava o caixa do dia, um compartimento de alumínio, semelhante a uma marmita, repleta de Cabralzinhos e moedas, muitos elastiquinhos para prender as notas em rolinhos, dezenas de canetas (de corpo colorido, com propaganda impressa, nada de mais, mas canetas já me encantavam nessa época). Nas outras, talões de notas fiscais, papelada pouca atraente para a garotada. No último gavetão, e em latões atrás de onde o sr. Nicolás se sentava diariamente, tentação: quinquilharias de cobre, bronze, lata, alumínio e outros derivados. Um apetitoso e atrativo tesouro para a criançada.
Com os netos, yayo era só atenção. Exagerada até. Certa vez, na tradicional brincadeira de bom princípio, ao fim das doze badaladas que anunciavam o Ano Novo, a tropa de Nicolazinhos formara fila indiana à frente do patriarca, todos com a mão estendida. E ele, para desespero de seus filhos, enfiou a mão no bolso e sacou enorme rolo de dinheiro. Exatamente o caixa do ferro-velho e, radiante, presenteou os netos com quantia exorbitante de cédulas. 'Estamos ricos, estamos ricos', gritávamos, ao mesmo tempo em que os pais corriam para recolher de volta o bom princípio dado. Eles não poderiam começar o ano sem um tostão na empresa. Em seu trono de senhor de 'nossas vontades', yayo Nicolás se esbaldava de rir.
Com ele não tinha tempo ruim. Ao menos para os netos. Tinha carinho especial por alguns. Eu, por exemplo, levava vantagem, afinal era sua afilhada também. E raramente yayo me dizia 'não'. Foi assim com minha primeira bicicleta, uma Monareta, recém-lançada no mercado. Fui com ele buscá-la na loja, mas quem deu as primeiras pedaladas foi meu irmão Ramón. Da loja até em casa, já que eu não tinha pratica alguma em duas rodas. Mal e desajeitadamente conseguia me equilibrar na magrela preta dele, com um cano ligando o selim e o guidão. Mas a minha Monareta não tinha nada disso. Era perfeita. Azul e branca, sem cano algum, com selim almofadado e pneus pretos e brancos. Um sonho!
Foi ele também quem me deu minha primeira máquina de escrever, pequena, portátil, um luxo, cor de laranja. Nela, comecei meus primeiros textos. Creio que ali teve início minha profissão. Tempos depois, numa das investidas de meu pai de tirar objetos de casa para um 'quebra-galho' no depósito, lá se foi minha máquina por empréstimo. Meses se passaram e meu xodó sumiu. Até encontrá-la com uma prima, cujo tio insistia em dizer que a havia comprado para a filha. Tolo! Até hoje tenho mania de colocar meu nome em vários locais (na época, havia Lola gravado na gordura acumulada em cima do armário da cozinha, na coleira do cachorro, debaixo da mesa da sala, na grade da janela da copa, na etiqueta do colchão...). Foi só virar a aboborona de ponta-cabeça e lá estava: Lola, SCS. Era minha. Peguei de volta.
Yayo também nos fazia brincar de caça ao tesouro. Era para achar balas e chocolates que ele adorava, mas, por ser diabético, ficavam escondidos pela yaya. Mal escondidas, por sinal, pois facilmente achávamos o pote (sempre no mesmo lugar) e, sorrateiramente, pegávamos os doces para nós e alguns para ele também. Santa inocência infantil a nossa! Ele não deveria comê-los. Mas, jamais se preocupou com sua saúde. Tinha uma ferida enorme na perna (não lembro qual, mas recordo dos unguentos que passavam nela e depois enfaixavam). Enganava os médicos, fingia tomar os remédios e não estava nem aí com a dor e a secreção. Tempos depois passou a usar bengala.
Era festeiro. Gostava de casa cheia, de fazer paella em fogo de lenha, usando tantos quantos utensílios houvesse casa. A louça...bom, tinha noras pra quê? Pra lavarem a louça e o quintal, enegrecido pela fuligem de madeira queimada.
Senhor Nicolás impunha respeito na sociedade. Só que adorava ludibriar quem por ventura viesse a vender-lhe sucata de má qualidade, manobrando no peso e na conta. Quando o cliente ia embora, flagrado por algum neto, apenas sorria e dizia que nada entendíamos.
Também gostava de jogar na loteria federal. Semanalmente lá estava o mesmo bilheteiro a vender-lhe a cartela cheia. Nada de fração. Era tudo ou nada. Ganhava uns trocados aqui, outro ali, trocava o bilhete graças à combinação de centena ou milhar, mas não ia além disso. Em 1971 cansou-se de tentar a sorte e avisou o bilheteiro que não jogaria mais. Chega! O rapaz, no entanto, não aceitou perder cliente tão assíduo e ficou horas convencendo-o a comprar a cartela inteira. Aporrinhou tanto que o Sr. Nicolás que, mesmo de má vontade, acabou cedendo e ficou com o bilhete. Premiado! Acertou em cheio e faturou sozinho R$ 50 milhões (em dinheiro da época). Torrou no que quis e não quis. Zerou dívidas, reformou a casa, foi viajar com sua velha para a Espanha (ir de avião naqueles tempos era uma fortuna), mas fez sua viagem de sonhos. E comprou um Galaxie 500, zero quilômetro, branco e com estofado vermelho. Fez questão de instalar uma buzina única em toda São Caetano. La Cucaracha. Por onde passava, ao avistar um conhecido, apertava o botão e, em alto e bom som, a rua parava para ouvir La Cucaracha, La Cucharacha, ya no puede caminar, porque no tiene, porque no tiene las patitas detrás.
Assim era o senhor Nicolás. Patriarca na mais pura concepção da palavra, jamais permitindo que um filho seguisse seu próprio caminho, exigindo que todos estivessem sempre ao seu lado, debaixo de sua asa. Um pouco cruel essa postura, mas ele defendia que família jamais deveria se desgarrar. Prejudicou o futuro de sua prole direta, impediu o sonho de cada um, a carreira imaginada, os voos solos. Assim era ele. Mas também era justo e jamais permitia, por exemplo, que uma nora levasse vantagem sobre as demais. Ao saber que um filho havia dado um regalo à esposa, prontamente providenciava o mesmo para aquela que não havia ganhado nada. Não fazia isso com todas (eram cinco noras e uma filha), mas só com aquelas que ele realmente amava.
Também prometera deixar para o neto mais velho, com quem mais conviveu, o Galaxie como herança. O carro tinha três anos de uso quando yayo Nicolás nos deixou, mas seu desejo não foi cumprido. Quando se morre nem sempre a família atende os desejos de quem partiu. Infelizmente.
Enfim, minhau, minhau, minhau, balalam, balalam, balalam. Pam pararampam, pam pam !
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário